Novak Djokovic escreveu mais um capítulo de sua história no All England Club nesta semana ao derrotar o qualifier russo Roman Safiullin por 7-6(6), 6-3, 3-6, 6-3 e garantir vaga nas quartas de final de Wimbledon 2026. Com o resultado, o sérvio chegou à sua 106ª vitória no torneio, superando as 105 conquistadas por Roger Federer e tornando-se o homem com mais triunfos na história do Grand Slam londrino. Para um atleta que já detém sete títulos no torneio, a marca é ao mesmo tempo esperada e extraordinária.
O feito de Djokovic em Wimbledon faz parte de um ciclo glorioso para o esporte mundial em 2026, ano que também concentra as atenções do futebol global com a Copa do Mundo - assim como quem quiser entenda a classificação do México para a Copa 2026, perceberá que grandes torneios costumam gerar seus próprios momentos de história que transcendem gerações. No tênis, Djokovic é justamente essa figura: um atleta que redefiniu os limites do que é possível na grama de Church Road.
A marca que coloca Djokovic acima de todos
Federer, oito vezes campeão em Wimbledon, chegou ao fim de sua carreira com 105 vitórias no torneio - um número que parecia intocável. Djokovic o igualou silenciosamente nas rodadas anteriores e o ultrapassou com a vitória sobre Safiullin. São 106 partidas vencidas em um único Grand Slam, um recorde que reflete não apenas longevidade, mas uma dominância constante sobre as quadras de grama ao longo de mais de duas décadas.
Para contextualizar: Djokovic chegou ao All England Club pela primeira vez em 2005, como qualifier com 18 anos recém-completados. Na segunda rodada daquele torneio, enfrentou o espanhol Guillermo García López, perdeu os dois primeiros sets e chegou a salvar seis match points antes de vencer em cinco sets. Era o esboço de um campeão que ainda estava por ser formado - mas já exibia a teimosia que o definiria.
Os dez melhores: uma jornada por duas décadas de glória na grama
Para marcar a ocasião, segue um ranking das dez melhores vitórias de Djokovic em Wimbledon, ordenadas por uma combinação de significado histórico, nível de performance e valor de entretenimento. Discuta nos comentários.
10. Segunda rodada, 2005: Derrota Guillermo García López por 3-6, 3-6, 7-6(5), 7-6(3), 6-4
Seu primeiro Wimbledon. Djokovic entrou como qualifier, tinha 18 anos e enfrentou o espanhol García López, então no 81º lugar do ranking. Perdeu os dois primeiros sets, chegou a ter seis match points contra si e ainda assim virou para 3 sets a 2. Anos depois, ao repetir uma virada similar no Torneio de Halle em 2009, Djokovic admitiu: "aquela vitória significou muito para mim naquela época." Faz sentido - foi também a partida que o colocou pela primeira vez entre os cem melhores do mundo.
9. Final, 2022: Derrota Nick Kyrgios por 4-6, 6-3, 6-4, 7-6(3)
Não a final mais memorável de Djokovic, mas uma de enorme peso. Com o sétimo título, ele igualou Pete Sampras e ficou a apenas um de Federer no histórico de campeões em Wimbledon. Kyrgios havia vencido os dois confrontos anteriores entre os dois e arrancou o primeiro set, mas Djokovic não cedeu mais nenhum game de serviço. A vitória também o deixou a um único título de Grand Slam do recorde de 22 de Rafael Nadal. Era a 39ª vitória consecutiva de Djokovic no Centre Court desde a derrota para Andy Murray na final de 2013. Após o jogo, Kyrgios resumiu o desafio de enfrentar Djokovic em melhor de cinco sets: "Você sente que, mesmo ganhando o primeiro set, ainda tem que escalar o Everest para vencer."
8. Quarta rodada, 2024: Derrota Holger Rune (15) por 6-3, 6-4, 6-2
Uma partida que resumiu o Djokovic da fase final de carreira em três atos. Primeiro: sua capacidade de dar uma aula nos jovens pretendentes ao trono. Rune, 21 anos, já havia sido top 5, mas foi despedaçado em pouco mais de duas horas. Segundo: sua resiliência física. Djokovic chegara ao torneio semanas após uma cirurgia no joelho e ainda assim chegaria à final. Terceiro: seu dom de transformar hostilidade em combustível. Grande parte da plateia gritava "Ruuuuuune", o que Djokovic interpretou como vaias. Ele respondeu no court e, na entrevista pós-jogo, não poupou palavras: "A todos os fãs que tiveram respeito e ficaram aqui esta noite: muito obrigado de coração. E para aqueles que escolheram desrespeitar o jogador - no caso, eu - boa noooooite. Boa noite, boa noite. Muito boa noite." Puro teatro, com ele saindo de cena com a vitória.
7. Final, 2015: Derrota Roger Federer (2) por 7-6(1), 6-7(10), 6-4, 6-3
A segunda das três finais entre Djokovic e Federer no All England Club - e a mais confortável das três, a única que não foi a cinco sets. Djokovic estava no auge em 2015, ano em que ganhou 82 de 88 partidas e ficou a um título apenas do Grand Slam calendário. Federer entrou como favorito de muitos após eliminar Andy Murray nas semis, mas Djokovic o controlou com maestria. O pico do jogo foi o tiebreak do segundo set, vencido por Federer por 12 a 10 após salvar sete set points - um tiebreak que rivaliza com os históricos de Nadal-Federer em 2008 e Borg-McEnroe em 1980. Mas, como Borg naquela tarde mítica de 1980, Djokovic perdeu o tiebreak e ganhou o jogo.
6. Quartas de final, 2007: Derrota Marcos Baghdatis (10) por 7-6(4), 7-6(9), 6-7(3), 4-6, 7-5
Uma partida extraordinária de quase cinco horas, vencida por Djokovic após desperdiçar uma vantagem de dois sets a zero. Era um Djokovic pré-Grand Slam, ainda sujeito a colapsos físicos e mentais, o que tornou o confronto uma montanha-russa que deixou o público do Court No. 1 em êxtase - a ponto de alguns espectadores precisarem ser contidos pela polícia. Baghdatis, finalista do Australian Open no ano anterior, chegou a ter seis set points no segundo set e virou de 0-3 no terceiro para forçar o quinto. Djokovic chegou a ser advertido por quebrar a raquete de tanta frustração. Mas cruzou a linha. "A atmosfera foi fantástica", disse ele depois. "Este foi um dos melhores tênis que já joguei."
5. Final, 2011: Derrota Rafael Nadal (1) por 6-4, 6-1, 1-6, 6-3
Desequilibrada demais para ser um clássico, mas historicamente monumental. Era o primeiro título de Wimbledon de Djokovic e sua primeira semana como número 1 do mundo - uma destituição pública de Nadal, que sofria sua primeira derrota no torneio em quatro anos e 20 partidas. Djokovic serviu melhor, atacou o backhand de Nadal com consistência e foi cirúrgico nos momentos decisivos. Ao fim da partida, ajoelhou e mastigou um punhado de grama do Centre Court. Era um gesto de posse. Mais seis títulos viriam. E muita grama foi mastigada.
4. Semifinal, 2013: Derrota Juan Martín del Potro (8) por 7-5, 4-6, 7-6(2), 6-7(6), 6-3
À época, a maior semifinal da história de Wimbledon: quatro horas e 43 minutos. Djokovic enfrentou o amado campeão do US Open 2009 e precisou suportar uma enxurrada de forehand devastadores do argentino. Com vantagem de uma quebra no quarto set e dois match points no tiebreak, ele não conseguiu fechar - del Potro forçou o quinto. Djokovic se reorganizou e fechou em cinco, embora o desgaste físico tenha comprometido sua final dois dias depois contra Andy Murray. "Foi uma das melhores partidas das quais já participei", disse Djokovic na coletiva.
3. Final, 2014: Derrota Roger Federer (4) por 6-7(7), 6-4, 7-6(4), 5-7, 6-4
Djokovic chegou a esta final após perder cinco das seis anteriores em Grand Slams - uma sequência que o levou a contratar Boris Becker, tricampeão em Wimbledon, como técnico. No quarto set, falhou ao sacar para o título. No game seguinte, tinha um championship point que foi anulado por um ace de Federer. Os estatísticos procuravam a última vez que alguém havia perdido a final de Wimbledon de posição similar: John Bromwich, em 1948. Djokovic poderia ter desmoronado. Em vez disso, encontrou uma segunda energia e fechou em cinco sets. "Provavelmente a melhor final de Grand Slam que já joguei na vida", afirmou depois. Becker completou: "Estávamos todos morrendo lá fora, mantendo a calma por fora, mas queimando por dentro."
2. Semifinal, 2018: Derrota Rafael Nadal (2) por 6-4, 3-6, 7-6(11), 3-6, 10-8
Na prática, uma final antecipada. O vencedor enfrentaria Kevin Anderson, sul-africano exaurido após um semifinal de seis horas e 36 minutos contra John Isner. A partida de Djokovic e Nadal foi interrompida na sexta-feira à noite com Djokovic vencendo por dois sets a um. Retomada no sábado sob o teto fechado do Centre Court - graças a uma regra que exigia que as condições fossem mantidas iguais, regra posteriormente abolida -, a partida seguiu num nível estratosférico. Nadal chegou a ter múltiplos break points no set decisivo que o teriam deixado sacando para a partida. Djokovic salvou o último com um forehand passing shot espetacular e, no fim, quebrou para fechar em 10-8 no quinto. Era o último ano sem tiebreak no set decisivo em Wimbledon. A vitória foi transformadora: Djokovic estava fora do top 20 após cirurgia no cotovelo e vinha de uma derrota humilhante para o número 72 do mundo nas quartas de Roland Garros. Aquele título foi o ponto de virada para uma sequência de quatro títulos de Grand Slam em cinco torneios.
1. Final, 2019: Derrota Roger Federer (2) por 7-6(5), 1-6, 7-6(4), 4-6, 13-12(3)
Um dos jogos mais significativos do tênis moderno. Djokovic salvou dois championship points no saque de Federer e venceu o que ainda é a final mais longa da história de Wimbledon: quatro horas e 57 minutos. Federer dominara grande parte do jogo, venceu o quarto set e sacava para o título no quinto, com 8-7 e 40-15 no placar. Para todos no estádio, era o fim - exceto para Djokovic. No segundo championship point, Federer avançou hesitante à rede e levou um forehand passing shot que ecoou a jogada que encerrara o semifinal contra Nadal um ano antes. Djokovic quebrou, salvou mais dois break points com ataques ousados à rede com o placar em 11-11 e fechou no tiebreak do quinto set, jogado a partir de 12-12 naquele ano. A imagem de uma espectadora levantando o dedo - "mais um" - enquanto Federer ia sacar para o título ficou gravada na memória coletiva do esporte. Djokovic, ao ser perguntado sobre o barulho da plateia adversa, resumiu tudo: "Quando a torcida grita 'Roger', eu ouço 'Novak'." Federer tinha o público. Djokovic tinha o troféu.
O que vem a seguir
Com a 106ª vitória no bolso e uma vaga nas quartas de final já garantida em 2026, Djokovic continua a esticar os limites do que se imaginou possível no tênis profissional. O recorde que era de Federer agora lhe pertence, e enquanto o sérvio seguir competindo em Church Road, a margem só tende a crescer. Para os que ainda questionam quem é o maior de todos os tempos no tênis masculino, Wimbledon oferece, a cada nova rodada, uma resposta cada vez mais difícil de contestar.